sábado, 17 de julho de 2010

08.02.2005

Antologia poética (18)...

Improviso quase musical...

Não tenho batuta nem maestro que me dirija
quando as palavras descendo pelas mãos
me instrumentam
toco-me de ouvido
eu próprio sou a partitura das notas
que fixam os silêncios do meu corpo
que falam
viajo numa galáxia de vozes
entre mim e todos os outros.

Ademar
08.02.2005


Antología poética (18)...

Improvisación casi musical...

No tengo batuta ni maestro que me dirija
cuando las palabras bajando por las manos
me instrumentam
me toco de oído
yo mismo soy la partitura de las notas
que fijan los silencios de mi cuerpo
que hablan
viajo en una galaxia de voces
entre yo y todos demás.

05.02.2005

Antologia poética (17)...

Improviso sobre o regresso...

Com a alma de inverno
fui procurar-me na primavera e voltei
os olhos perfumados de camélias altivas
e as mãos nervosamente suspensas
sobre o tacto prometido
não sou predestinável a viagens impossíveis
tenho o treino e a teimosia dos navegadores solitários
que nunca recuam
perante os mais íntimos horizontes do medo.

Ademar
05.02.2005


Antología poética (17)...

Improvisación sobre el regreso...

Con el alma de invierno
he ido a buscarme a la primavera y he vuelto
los ojos perfumados de camelias altivas
y las manos nerviosamente suspendidas
sobre el tacto prometido
no soy predestinable a viajes imposibles
tengo el entrenamiento y la tenacidad de los navegadores solitarios
que nunca retroceden
ante los más íntimos horizontes del miedo.

02.02.2005

Antologia poética (16)...

Improviso sobre um abandono de camélias...

Tenho um quintal
plantado na saudade da infância
a que subia por uma estreita escada de granito
sofridamente talhada numa vertente de séculos
era lá que eu me esculpia solitário
entre nomes de coisas que pareciam sorrir
à lógica ainda refractária do meu entendimento
eu não sabia ainda de fronteiras marítimas
nem de caravelas galopantes
mas todos os meus sentidos costumavam dialogar em segredo
com o mistério das formas que me renasciam
interrogando a luz e o cheiro
daquelas corolas que a minha mãe
dizia exiladas do oriente
só muito mais tarde compreendi que as japoneiras
precisavam do silêncio dos meus olhos
para florir neste inverno.

Ademar
02.02.2005


Antología poética (16)...

Improvisación sobre un abandono de camelias...

Tengo un jardín
plantado en la nostalgia de la infancia
a la que subía por una estrecha escalera de granito
sufridamente tallada en una pendiente de siglos
era allí donde yo me esculpía solitario
entre nombres de cosas que parecían sonreír
a la lógica todavía refractaria de mi entendimiento
yo no sabía aún de fronteras marítimas
ni de carabelas galopantes
pero todos mis sentidos solían dialogar en secreto
con el misterio de las formas que me renacían
interrogando a la luz y al olor
de aquellas corolas que mi madre
decía exiliadas de oriente
sólo mucho más tarde he comprendido que las camelias
necesitaban el silencio de mis ojos
para florecer en este invierno.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

24.01.2005

Antologia poética (15)...

Improviso ao jeito de Alexandre O'Neill...

Projectei o poema
a partir de quatro metáforas de garantida originalidade
todas elas tão pessoais
e intransmissíveis
(supus)
que seria improvável
para não dizer impossível
que alguém as tivesse usado antes
com as quatro metáforas
empreitei o poema
depois comovi-me ao espelho
(se o poema não comove o autor
é um poema falhado)
e
orgulhoso da obra prima
partilhei-a com o patologista de serviço
à urgência das literaturas
o diagnóstico foi fulminante
nenhuma das metáforas era original
e o poema não passava de um remendo trôpego
de alarvidades
sujeito-me agora
à expiação do copista intalentado
confesso e assino por baixo
esgotei o baú das metáforas
sobra-me apenas um destino honroso
mudar de ramo
(literário).

Ademar
24.01.2005


Antología poética (15)...

Improvisación al estilo de Alexandre O'Neill...

He proyectado el poema
a partir de cuatro metáforas de garantizada originalidad
todas ellas tan personales
e intransmisibles
(he supuesto)
que sería improbable
por no decir imposible
que alguien las hubiera usado antes
con las cuatro metáforas
he construido el poema
después me he conmovido al espejo
(si el poema no conmueve al autor
es un poema fallido)
y
orgulloso de la obra prima
la he compartido con el patólogo de guardia
en urgencias de las literaturas
el diagnóstico ha sido fulminante
ninguna de las metáforas era original
y el poema no pasaba de un remiendo torpe
de ordinarieces
me sujeto ahora
a la expiación del copista intalentado
confieso y subscribo
he agotado el baúl de las metáforas
sólo me resta un destino honroso
mudar de ramo
(literario).

30.01.2005

Antologia poética (14)...

Improviso sobre a ruptura...

Sou um novelo de palavras
não sei onde me termino
evito os pontos finais
porque o futuro pode sempre começar
numa recusa
entre frases que não cheguei a ligar
um gesto suspenso sobre o pântano
uma rosa que não completou o feitiço
um livro que não saiu do cais
dos segredos impartilháveis
sou um novelo de palavras
e vivo enredado em mim
à espera talvez de um milagre
a derradeira metamorfose
o regresso à fonte de todos os inícios.

Ademar
30.01.2005


Antología poética (14)...

Improvisación sobre la ruptura...

Soy un ovillo de palabras
no sé dónde me termino
evito los puntos finales
porque al final el futuro puede empezar
en un rechazo
entre frases que no he llegado a unir
un gesto suspendido sobre el pantano
una rosa que no ha consumado el hechizo
un libro que no ha salido del muelle
de los secretos incompartibles
soy un ovillo de palabras
y vivo enredado en mí
a la espera tal vez de un milagro
la postrera metamorfosis
el regreso a la fuente de todos los inicios.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Antologia poética (431)... Telegramando...

Não me esperes do outro lado da sebe stopNão me obrigues a saltar sobre o muro
que posso cair e partir a bússola stop
Vem ao meu encontro procura-me stop
Estarei onde tu quiseres stop
e trarei comigo um sinal de luz
nos olhos cansados mas ainda abertos stop
para que me distingas na noite stop
no cinzento baço da penumbra dos bosques
por entre os pirilampos stop

Ademar
publicado em Descansando do Futuro - Reserva de Intimidade. Edições Asa. 2003


Antología poética (431)...
Telegramando...

No me esperes del otro lado del seto stop
No me obligues a saltar el muro
que me puedo caer y romper la brújula stop
ven a mi encuentro búscame stop
Estaré donde tú quieras stop
y llevaré conmigo un vestigio de luz
en los ojos cansados pero aún abiertos stop
para que me distingas en la noche stop
en el gris empañado de la penumbra de los bosques
entre las luciérnagas stop

publicado en Descansando do Futuro - Reserva de Intimidade. Edições Asa. 2003

07.12.2004

Improviso para desaprender o futuro...

Já nada peço ao espelho
distraí-me da eternidade
e o tempo corre agora para trás
entre imagens em que já não me revejo
desaprendo-me lentamente
de me espreitar no futuro.

Ademar
07.12.2004


Antología poética (27)...

Improvisación para desaprender el futuro...

Ya nada le pido al espejo
me he despistado de la eternidad
y el tiempo corre ahora hacia atrás
entre imágenes en las que ya no me reconozco
me desaprendo lentamente
de escrutarme en el futuro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

15.12.2004

Antologia poética (13) ...

Testamento apócrifo de Alexandre Magno, rei da Macedónia...

De Aristóteles aprendi
que a natureza de cada um
é a sua máxima autoridade
e por isso a minha ambição
não se deteve diante de nenhuma fronteira
a eternidade que escutei em cada batalha
foi a única medida da razão
que a mim próprio me impus
persegui apenas um sonho
e a esse sonho sacrifiquei tudo e todos
menos a vaidade da grandeza que me prometera
não poupei traições nem desconfianças
mas fui magnânimo
com todos os cronistas de aquém e de além-mar
e os vencidos que se ofereceram à vassalagem
em troca do perdão
não vacilei diante dos inimigos
nem temi confrontos desiguais
e aceitei o preço mais alto da solidão
porque esse é o destino impartilhável
dos inventores de futuro
o poder construí-o sobre o mito da invencibilidade
e nem na morte abdiquei dele
digo
de mim
herança intransmissível
para que ninguém o diminuísse
o meu sonho teria que morrer comigo.

Ademar
15.12.2004


Antología poética (13) ...

Testamento apócrifo de Alejandro Magno, rey de Macedonia...

De Aristóteles aprendí
que la naturaleza de cada uno
es su máxima autoridad
y por eso mi ambición
no se ha detenido ante frontera alguna
la eternidad que he escuchado en cada batalla
ha sido la única medida de la razón
que a mí mismo me he impuesto
he perseguido sólo un sueño
y a ese sueño lo he sacrificado todo y a todos
menos la vanidad de la grandeza que me había prometido
no he ahorrado en traiciones ni en desconfianzas
pero he sido magnánimo
con todos los cronistas de éste y del otro lado del mar
y los vencidos que se ofrecieron en vasallaje
a cambio del perdón
no he vacilado ante los enemigos
ni he temido confrontaciones desiguales
y he aceptado el precio más alto de la soledad
porque ése es el destino incompartible
de los inventores de futuro
sobre el mito de la invencibilidad he construido el poder
y ni en la muerte he abdicado de él
digo
de mí
herencia intransmisible
para que nadie lo rebajase
mi sueño tendría que morir conmigo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

27.12.2004

Antologia poética (12)...

Improviso quase poético em forma de brinquedo...

Nem sempre o caminho
é voltar para trás
há esquinas em que apetece
enganar o destino
e seguir numa paralela
há poemas assim como crianças
escondidas debaixo da cama
para não serem vistas
eu tenho uma cama de pregos
por cima das palavras
em que me escondo.

Ademar
27.12.2004


Antología poética (12)...

Improvisación casi poética en forma de juguete...

No siempre el camino
es volver hacia atrás
hay esquinas en que apetece
engañar al destino
y tirar por una paralela
hay poemas así como niños
escondidos debajo de la cama
para que no los vean
yo tengo una cama de clavos
por encima de las palabras
en que me escondo.

13.10.2004

Antologia poética (11)...

Saudades de Veneza...

Quando quero fingir de mim
afivelo uma máscara.

Ademar
13.10.2004


Antología poética (11)...

Añoranza de Venecia...

Cuando me quiero fingir yo
me ciño una máscara.

23.10.2004

Antologia poética (10)...

Improviso através das grades...

Memória cela
como fugir dela?...
como voltar?...
perdi a chave
para poder entrar em mim
e sair de mim
sempre que quiser.

Ademar
23.10.2004


Antología poética (10)...

Improvisación a través de las rejas...

Memoria celda
¿cómo escapar de ella?...
¿cómo volver?...
he perdido la llave
para poder entrar en mí
y salir de mí
siempre que quiera.

domingo, 11 de julho de 2010

18.10.2004

Antologia poética (9)...

My moleskine...

Parece que estamos sempre de partida
para sítio nenhum
viajamos incógnitos no silêncio
entre todos os passados
e todos os futuros
e um dia finalmente
abandonamo-nos a descansar
no cais do esquecimento
chorando um a um
como fazem os náufragos
todos os navios que nos adiaram.

Ademar
18.10.2004


Antología poética (9)...

My moleskine...

Parece que estamos siempre de partida
hacia ningún sitio
viajamos incógnitos en el silencio
entre todos los pasados
y todos los futuros
y un día por fin
nos abandonamos a descansar
en el muelle del olvido
llorando uno a uno
como hacen los náufragos
todos los navíos que nos han postergado.

10.Julho.2004

Antologia poética (8)...

Escrito sobre o "Agnus Dei", de Frank Martin

Há palavras que se anunciam e me despertam
e outras que sem bater à porta entram por mim adentro
sorrateiramente
adoentando-me
Sou em estado de palavras
Não sei donde venho
ignoro todas as origens que me transportam
Por isso
peço apenas hospedagem ou internamento a mim próprio
e ofereço-me às palavras
para sobreviver com elas.

Ademar
10.Julho.2004


Antología poética (8)...

Escrito sobre el "Agnus Dei", de Frank Martin

Hay palabras que se anuncian y me despiertan
y otras que sin llamar a la puerta entran por mí adentro
taimadamente
enfermándome
Soy en estado de palabras
No sé de dónde vengo
ignoro todos los orígenes que me transportan
Por eso
me pido únicamente hospedaje o internamiento a mí mismo
y me regalo a las palabras
para sobrevivir con ellas.

sábado, 10 de julho de 2010

11.Julho.2004

Antologia poética (7)...

Escrito sobre "Christmas Music from Aquitanian Monasteries" (12th century)

Moro na cidade de baixo
esquecido do rumo de outras cidades
Nem campos nem desertos
É daqui que vejo tudo o que sobra para os meus olhos
a rigorosa incontinência dos gestos das pessoas comuns
que já não aspiram a altares na embriaguês dos desejos
e os caminhos circulares dos que ainda procuram as pontes
que nunca existiram
Nem florestas nem praias
Na cidade de baixo
já não há vestígios das sete portas
e a esfinge sou eu.

Ademar
11.Julho.2004


Antología poética (7)...

Escrito sobre "Christmas Music from Aquitanian Monasteries" (12th century)

Vivo en la ciudad de abajo
olvidado del rumbo de otras ciudades
Ni campos ni desiertos
Desde aquí veo todo lo que queda para mis ojos
la rigurosa incontinencia de los gestos de las personas normales
que ya no aspiran a altares en la embriaguez de los deseos
y los caminos circulares de los que todavía buscan los puentes
que nunca han existido
Ni bosques ni playas
En la ciudad de abajo
ya no hay vestigios de las siete puertas
y la esfinge soy yo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Iniciação...

Antologia poética (6)...

Não cobiço nem disputo os teus olhos
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tão pouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias
mesmo que tu me percas e eu te perca
algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
Deixa-me arriscar o barro talvez impróprio
na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida.

Ademar
Junho.2000

publicado em Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade), Asa, 2003


Antología poética (6)...

Iniciación...

No codicio ni disputo tus ojos
no estoy siquiera esperando que me dejes ver a través de tus ojos
ni sé tampoco si quiero ver qué ven y cómo ven tus ojos
Nada de lo que puedas ver me llevará a ver y a pensar contigo
si no no soy capaz de aprender a ver por mis ojos y a pensar conmigo
No me digas cómo se camina y por dónde es el camino
déjame simplemente acompañarte cuando yo quiera
Si el camino de tus pasos está iluminado
por la más resplandeciente de las estrellas que observan las noches y los días
aunque que tú me pierdas y yo te pierda
en algún lugar de la caminata con seguridad nos reencontraremos
No me expliques cómo deberé ser
cuando un día las circunstancias quieran que yo me encuentre
en el espacio y en el tiempo de condiciones que tú entiendes y dominas
Siémbrate como eres y ofrécete simplemente a la cosecha de todas las horas
No me ates las manos
no hagas de ellas instrumento dócil de inspiraciones que aún no he vivido
Déjame arriesgar el barro tal vez impropio
en el taller donde cobran forma y pasión todos los sueños que anticipan el futuro
Y no me obligues a leer os libros que yo aún no he adivinado
ni quieras que sepa lo que aún no soy capaz de interrogar
Prótegeme de las incursiones obligatorias que ahogan el placer del descubrimiento
y con el silencio (íntimamente sabio) de tus palabras y de tus gestos
ayúdame serenamente a leer y a escribir mi propia vida.

publicado en Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade), Asa, 2003

Setembro.2004

Antologia poética (5)...

Improviso sobre outra imagem...












Na memória das imagens que me interrogam
respondo-te com a antiguidade
de um tempo que me precede
Semicerro os olhos e desenho as tuas formas
numa espécie de neblina pré-histórica
Desconhecerei eternamente a idade que nos pertence.

Ademar
Setembro.2004


Antología poética (5)...

Improvisación sobre otra imagen...

En el recuerdo de las imágenes que me interrogan
te respondo con la antigüedad
de un tiempo que me precede
Semicierro los ojos y dibujo tus formas
en una especie de neblina prehistórica
Desconoceré eternamente la edad que nos corresponde.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Setembro.2004

Antologia poética (4)...

Improviso sobre uma imagem...














Aprender as mãos e os ouvidos
aprender o gesto e o corpo
aprender os cheiros e os sabores
aprender o silêncio
aprender o movimento
aprender os sentidos do olhar
e voltar sempre ao princípio de tudo.

Ademar
Setembro.2004

Antología poética (4)...

Improvisación sobre una imagen...

Aprender las manos y los oídos
aprender el gesto y el cuerpo
aprender los olores y sabores
aprender el silencio
aprender el movimiento
aprender los sentidos de la mirada
y volver siempre al principio de todo.

02.06.2004

Antologia poética (3)...

Memória de uma voz...

Nat King Cole

Uma voz pode ser
interpretando mesmo a ausência
todo o centro de gravidade
da nostalgia.

Ademar
02.06.2004


Antología poética (3)...

Recuerdo de una voz...

Nat King Cole

Una voz puede ser
interpretando incluso la ausencia
todo el centro de gravedad
de la nostalgia.

11.08.2004

Antologia poética (2)...

Poema ao estilo de Serge Gainsbourg...

Nunca disse je-teme
(assim mesmo, à portuguesa)
Preferi sempre a linguagem gestual
que não consente tradutor
(antes de me especializar em braille).

Ademar

11.08.2004


Antología poética (2)...

Poema al estilo de Serge Gainsbourg...

Nunca he dicho je-teme
(tal cual, a la portuguesa)
He preferido siempre el lenguaje gestual
que no admite traductor
(antes de especializarme en braille).

quarta-feira, 7 de julho de 2010

22.06.2004

Antologia poética (1)...

Escrito sobre o Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler
(interpretado por The Uri Caine Ensemble)

Estou delicadamente construído sobre uma rede de canais
De todas as margens que hesito
saem pontes que me projectam para os outros lados de mim
Distraio-me
para perder sempre
a última carreira do vaporetto.

Ademar
22.06.2004


Antología poética (1)...

Escrito sobre el Adagietto de la 5ª Sinfonía de Malher
(interpretado por The Uri Caine Ensemble)

Estoy delicadamente construido sobre una red de canales
De todas las orillas que vacilo
salen puentes que me proyectan hacia los otros lados de mí
Me distraigo
para perder siempre
el último viaje del vaporetto.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Improviso (mais um) para pedra tumular...

1. Desmarquei todas as consultas
para não saber a data precisa da minha morte
2. e para não ter de renovar
o guarda-roupa
3. a cor das paredes ficou fantástica
não fora a cegueira das mãos
4. os manuais escolares os jornais e
as revistas velhas não couberam no papelão
5. as estantes da sala não celebraram ainda
o milagre da ressurreição
6. os brinquedos do quarto do espelho
continuam à espera de pilhas novas
7. as velas deixaram de contar
o fogo que as silenciou
8. e as flores que entretanto murcharam
também.

Ademar
20.05.2010


Improvisación en respuesta a un cuestionario íntimo...

1. He anulado todas las consultas
para no saber la fecha exacta de mi muerte
2. y para no tener que renovar
el guardarropa
3. el color de las paredes ha quedado fantástico
si no fuese por la ceguera de las manos
4. los manuales escolares los diarios y
las revistas viejas no han cabido en el contenedor
5. las estanterías de la sala no han celebrado aún
el milagro de la resurrección
6. los juguetes del cuarto del espejo
siguen esperando pilas nuevas
7. las velas han dejado de contar
el fuego que las silenció
8. y las flores que mientras tanto se han marchitado
también.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Improviso (mais um) para pedra tumular...

Se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
voltaria por exemplo a escrever sonetos
quase perfeitos
para a Deolinda
que virginava entre as capelas da Sé
e para a Sameiro
de quem guardo ainda uma fotografia
naturalista
a preto e branco
e para a Conceição
que me acompanhava sempre em silêncio
ou em latim
se calhar já morreram
ou continuam ainda a ler-me em segredo
já sexagenárias
se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
e regressaria sempre
à lenta memória das teclas
e dos dedos
que tocaram todas as palavras.

Ademar
19.05.2010


Improvisación (otra más) para piedra tumular...

Si renaciese
repetiría todo otra vez
y me acompañaría al piano
sin partitura
que ya me sabría de oído
o de memoria
volvería por ejemplo a escribir sonetos
casi perfectos
para Deolinda
que virginaba entre las capillas de la Catedral
y para la Sameiro
de quien guardo todavía una fotografía
naturalista
en negro y blanco
y para Conceição
que me acompañaba siempre en silencio
o en latín
quizá ya hayan muerto
o siguen aún leyéndome en secreto
ya sexagenarias
si renaciese
repetiría todo otra vez
y me acompañaría al piano
sin partitura
que ya me sabría de oído
o de memoria
y regresaría siempre
a la lenta memoria de las teclas
y de los dedos
que han tocado todas las palabras.

domingo, 4 de julho de 2010

Improviso para epopeia e contrafacção...

Hoje morreram em Portugal
até às vinte e três horas
contei-as uma a uma
duzentas e oitenta pessoas
e nasceram
duzentas e setenta e duas
tenho uma hora
uma hora apenas
para inverter o contador da demografia
e suster o défice
pela pátria
como o primeiro-ministro
faço tudo.

Ademar
18.05.2010


Improvisación para epopeya e imitación...

Hoy habían muerto en Portugal
hasta las veintitrés horas
las he contado una a una
doscientas ochenta personas
y habían nacido
doscientas setenta y dos
tengo una hora
una hora solamente
para invertir el contador de la demografía
y contener el déficit
por la patria
como el primero-ministro
lo hago todo.

Improviso para metáfora convencional...

O universo
tem muita gente
que anda à procura
de uma casa
em que caiba
e nunca encontra
pelo menos
no tempo de uma vida
os gatos
ao invés
têm muitas vidas
e nunca desistem
pelo menos
antes da última.

Ademar
17.05.2010


Improvisación para metáfora convencional...

En el universo
hay mucha gente
que anda buscando
una casa
en que quepa
y nunca la encuentra
por lo menos
en el tiempo de una vida
los gatos
al contrario
tienen muchas vidas
y nunca desisten
por lo menos
antes de la última.

sábado, 3 de julho de 2010

Improviso sobre uma tela desta noite... *


























Improvisación sobre un lienzo de esta noche... *

Las distancias
engañan a la mirada
y al pensamiento
sólo las manos tocan
la evidencia de todas las cosas
que fingen existir.

____________
* Fotografia de María Alonso Seisdedos.

Improviso para perguntar afinal o teu nome...

Tanto ou tão breve destino
entre as minhas palavras
e o teu olhar tão fiel
é aqui
todas as noites
neste bar de desterrados
que nos cruzamos
e por nenhuma porta
entramos ou saímos
entre comungarmos
o arbítrio das sombras
numa tela com a forma
de uma cama
ou de uma mesa
sobre a qual sempre adormecêssemos
antes mesmo de nos cuidarmos
a poesia tem as fronteiras exactas
deste silêncio compartilhado
encontramo-nos aqui
como em tempo algum
e seremos sempre felizes
assim.

Ademar
15.05.2010


Improvisación para preguntar por fin tu nombre...

Tanto o tan breve destino
entre mis palabras
y tu mirada tan fiel
es aquí
todas las noches
en este bar de desterrados
donde nos cruzamos
y por ninguna puerta
entramos ni salimos
entre que comulgamos
el arbitrio de las sombras
en un lienzo con la forma
de una cama
o de una mesa
sobre la cual siempre nos durmiésemos
antes incluso de darnos cuenta
la poesía tiene las fronteras exactas
de este silencio compartido
nos encontramos aquí
como en ningún tiempo
y seremos siempre felices
así.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Improviso gastronómico e muito popular...

Maria de Todas as Alheiras
Bruna Real
no esplendor da nudez mais pedagógica
de Portugal
José Gama
da geração mais antiga dos Gamas
e também a mais sacerdotal
Isaltino Morais
o imortal de Oeiras
(a aguardar presidio)
Jesualdo Ferreira
Luciano Cordeiro
de tão pedestre memória
e
mais célere e celebrado de que todos os demais
o Professor Doutor
por extenso
Ambrósio Asdrúbal Piruças de Aragão e Castela
todos
cidadãos ilustres de Mirandela.

Ademar
14.05.2010


Improvisación gastronómica y muy popular...

Maria de Todas as Alheiras
Bruna Real
en el esplendor de la desnudez más pedagógica
de Portugal
José Gama
de la generación más antigua de los Gamas
y también la más sacerdotal
Isaltino Morais
el inmortal de Oeiras
(esperando presidio)
Jesualdo Ferreira
Luciano Cordeiro
de tan pedestre memoria
y
más célere y celebrado de que todos los demás
de nombre completo
Ambrósio Asdrúbal Piruças de Aragón y Castilla
todos
ciudadanos ilustres de Mirandela.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Improviso para desesteriotipar...

Dizias de tudo o que te fazia vibrar
fossem cordas de uma harpa
ou de uma guitarra
ou de um violoncelo
que era romântico
e eu replicava sempre
nenhum adjectivo pertence às coisas
mas a cada um de nós
e tu ficavas confusa
porque não entendias
julgavas talvez
que as flores nascessem românticas
por força de uma lei qualquer
da natureza
um dia saberás que os adjectivos
são a única e exacta medida
da subjectividade
tudo o mais
repartimos com o universo.

Ademar
13.05.2010


Improvisación para desesteriotipar...

Decías de todo lo que te hacía vibrar
ya fuesen cuerdas de un arpa
o de una guitarra
o de un violonchelo
que era romántico
y yo objetaba siempre
ningún adjetivo concierne a las cosas
sino a cada uno de nosotros
y tú te quedabas confusa
porque no entendías
creías tal vez
que las flores nacían románticas
por causa de una ley cualquiera
de la naturaleza
un día sabrás que los adjetivos
son la única y exacta medida
de la subjetividad
todo lo demás
nos lo repartimos con el universo.

Improviso para sobreviver à escola...

Fui à educação e voltei
nenhum fogo me reteve
tão próximo da água
das matrizes
como o fogo
de me saber interior
a todos os vulcões
em que cresci.

Ademar
12.05.2010


Improvisación para sobrevivir a la escuela...

Fui a la educación y volví
ningún fuego me retuvo
tan cerca del agua
de las matrizes
como el fuego
de saberme interior
a todos los volcanes
en que crecí.

Improviso para explicar por que não abro a porta de minha casa a todos os comediantes...

Tens todo o ar
meu velho salafrário
de sorriso nazi
de quem foi comido
em segredo
por Pier Paolo Pasolini
e gostou muito
na cruz
obviamente
em technicolor
e de braços bem abertos
como impõem os evangelhos.

Ademar
11.05.2010


Improvisación para explicar por qué no abro la porta de mi casa a todos los comediantes...

Tienes toda la pinta
viejo mamarracho
de sonrisa nazi
de que se te hubiese cepillado
en secreto
Pier Paolo Pasolini
y te hubiese gustado mucho
en la cruz
obviamente
en tecnicolor
y con los brazos bien abiertos
como imponen los evangelios.