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terça-feira, 6 de março de 2012

Improviso sobre o passado irrepetível...

Ninguém dirá que desisti
quando a loucura parecia tomar a forma
de um borrão na tua alma
e as mãos se desintegravam
nas palavras e nos gestos
que o vulcão implodia
ninguém dirá que desisti
quando mais precisaste de mim
na fronteira do que nunca se diz.

Ademar
28.02.2009


Improvisación sobre el pasado irrepetible...

Nadie dirá que desistí
cuando la locura parecía cobrar forma
de borrón en tu alma
y las manos se desintegraban
en las palabras y en los gestos
que el volcán reventaba
nadie dirá que desistí
cuando más me necesitaste
en la frontera de lo que nunca se dice.

Improviso para iniciação...










Não sei se fotografaste
ou se pintaste
tantos troncos e ramos entrelaçados
e os frutos suspensos da nudez
do nenhum olhar
no princípio da humanidade
não foi o verbo
mas esta orgia de formas.

Ademar
27.02.2009

Improvisación para iniciación...
No sé si has fotografiado
o si has pintado
tantos troncos y ramas entrelazados
y los frutos colgados de la desnudez
de ninguna mirada
en el principio de la humanidad
no fue el verbo
sino esta orgía de formas.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Improviso para a Cláudia, filha do Zé Henriques Coimbra...

Se eu ainda fosse a tempo
oferecer-lhe-ia
a lua partida ao meio
não importa em que dialecto
nem se em forma de queijo
ou de nuvem branca
os amigos que morrem em segredo
têm sempre mais urgência
mas eu sei que ele me devolveria
a metade da lua
mais próxima da copa das árvores
e me daria um abraço
para que eu não mais a deixasse.

Ademar
26.02.2009


Improvisación para Cláudia, hija de Zé Henriques Coimbra...

Si aún estuviera a tiempo
yo le regalaría
la luna partida al medio
no importa en qué dialecto
ni si en forma de queso
o de nube blanca
los amigos que mueren en secreto
tienen siempre más urgencia
pero yo sé que él me devolvería
la mitad de la luna
más cercana a la copa de los árboles
y me daría un abrazo
para que yo no la dejara nunca más.

domingo, 4 de março de 2012

Improviso para explicar que rosa rima com tudo...

Libertinos ou libertários
deixa-nos apenas ser secretos
como as luzes que retocam
as margens
quando o canal adormece
não abras de mais as janelas
não chames o vento
não ergas a voz
a fama
lembra-te
é uma incomodidade
o universo que cruza as arcadas
da praça maior
esgotou a lotação do silêncio.

Ademar
25.02.2009


Improvisación para explicar que rosa rima con todo...

Libertinos o libertarios
déjanos simplemente ser secretos
como las luces que retocan
las orillas
cuando el canal se duerme
no abras demasiado las ventanas
no llames al viento
no levantes la voz
la fama
recuerda
es una incomodidad
el universo que cruza los soportales
de la plaza mayor
ha agotado el aforo del silencio.

Improviso para dizer apenas duas frases...












Improvisación para decir sólo dos frases...

Me preguntas si soy famoso
y contesto
solo yo me conozco
nada de lo que digan
o piensen de mí
añadirá sustancia
a lo que no he llegado a ser.

sábado, 3 de março de 2012

Improviso entre amanheceres...

O universo virado do avesso
nos pés que desaprenderam
de caminhar sobre o fogo
as palavras suspensas
sobre a terra que arde
enquanto a matéria levita
este tango tem a forma
de uma girafa voadora
e há conchas que bebem
suores adormecidos
o mar que funde no teu corpo
e as mãos que te recolhem
e guardam.

Ademar
23.02.2009


Improvisación entre amaneceres...
El universo vuelto del revés
en los pies que han desaprendido
de caminar sobre el fuego
las palabras colgadas
sobre la tierra que arde
mientras la materia levita
este tango tiene forma
de jirafa voladora
y hay conchas que beben
sudores dormidos
el mar que se funde en tu cuerpo
y las manos que te recogen
y guardan.

Improviso místico...

Dessa janela de que me falas
vês o mar
e as algemas
e há vozes de crianças
que dançam a rotina das ondas
ignorando a tua condição de barco
ou de bóia
e todos os tédios servidos à mesa
de Tântalo
nas noites desabrigadas de luar
dessa janela de que me falas
vês o mar ou o que imaginas dele
e talvez na linha do horizonte
eu seja ainda o sol
que se ajoelha ao fim da tarde
para rezar a todos os deuses impossíveis.

Ademar
22.02.2009


Improvisación mística...

Desde esa ventana desde la que me hablas
ves el mar
y los grilletes
y hay voces de niños
que bailan la rutina de las olas
ignorando tu condición de barco
o de boya
y todos los tedios servidos a la mesa
de Tántalo
en las noches desabrigadas de luz de luna
desde esa ventana desde la que me hablas
ves el mar o lo que imaginas de él
y tal vez en la línea del horizonte
yo sea todavía el sol
que se arrodilla al atardecer
para rezarles a todos los dioses imposibles.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Improviso quase carnavalesco...

Pessoas pessoas pessoas
máscaras de cera
que o futuro derrete
já ignorei a cor dos teus olhos
quando apenas voavas
depois entrei por eles
e adormeci
adormecemos todos
digo
derretemos no fogo
tão depressa quanto ardemos.

Ademar
22.02.2009


Improvisación casi carnavalesca...

Personas personas personas
máscaras de cera
que el futuro derrite
ya he ignorado el color de tus ojos
cuando apenas volabas
después entré por ellos
y me dormí
nos dormimos todos
digo
nos derretimos en el fuego
tan rápido como ardemos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Improviso para urgência...

Este veneno
infecta a alma
não há sangue
que o conduza
entre os vários sentidos
é quase uma pré-existência
um projecto de destinos interrogados
e sempre inviáveis
este veneno pede a picada da eternidade
nos teus lábios ausentes
uma implosão de metáforas
entre rios de lavas
que nenhuma margem contém
este veneno
tem o princípio activo de um poema
escrito a fogo na porta sempre fechada
da tua loucura.

Ademar
21.02.2009


Improvisación para urgencia...

Este veneno
infecta el alma
no hay sangre
que lo conduzca
entre los varios sentidos
es casi una preexistencia
un proyecto de destinos interrogados
y siempre inviables
este veneno pide la picadura de la eternidad
en tus labios ausentes
una implosión de metáforas
entre ríos de lavas
que ninguna orilla contiene
este veneno
tiene el principio activo de un poema
escrito a fuego en la puerta siempre cerrada
de tu locura.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Improviso ainda para segredar...

Vens e vais
e nunca ficas
este é o único lugar no universo
que te pertence por inteiro
exactamente
porque não lhe pertences
e nada aqui te pertence
senão o tempo
essa urgência de fogo
em que ardemos
antes de todas as noites
que nunca serão
o nosso amor
deixa-me dizer assim para que todos entendam
é um segredo.

Ademar
20.02.2009


Improvisación aún para secretear...

Vienes y vas
y nunca te quedas
este es el único lugar del universo
que te pertenece por entero
exactamente
porque no le perteneces
y nada aquí te pertenece
sino el tiempo
esa urgencia de fuego
en la que ardemos
antes de todas las noches
que nunca serán
nuestro amor
déjame decirlo así para que todos lo entiendan
es un secreto.

Improviso quase geométrico...

As palavras mais lentas
caminham devagar como as mãos
arroteando a pele
há um sétimo sentido
que recolhe as palavras
no eixo do encantamento
e as devolve ao silêncio
agora o tempo parece
tropeçar sempre nos ponteiros
do corpo
que as mãos adiantam
é tarde para regressar
ao desconhecimento
as palavras mais lentas
lambem o desejo
nos teus ouvidos
e o universo tem orelhas
que gritam.

Ademar
19.02.2009


Improvisación casi geométrica...

Las palabras más lentas
caminam despacio como las manos
roturando la piel
hay un séptimo sentido
que recoge las palabras
en el eje del encantamiento
y las devuelve al silencio
ahora el tiempo parece
tropezar siempre en las agujas
del cuerpo
que las manos adelantan
es tarde para regresar
al desconocimiento
las palabras más lentas
lamem el deseo
en tus oídos
y el universo tiene orejas
que gritan.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Improviso para piano e arco excêntrico...

Eis-te suspensa das teclas
de uma loucura quase normal
nenhuma partitura tem tantas garras
como a tua obsessão pelo arco-íris
não há esperança que sirva de almofada
à fragmentação
milagre é que ainda consigas
caminhar sobre os pés
sem tropeçares nos passos
ele há tanta gente entrincheirada
na memória do que serás
um poema ainda perfeito
um gelado de fogo
uma luz esculpida no silêncio
um mapa de camélias doces
e cruas
no lugar das mãos.

Ademar
18.02.2009


Improvisación para piano y arco excéntrico...

Hete ahí colgada de las teclas
de una locura casi normal
ninguna partitura tiene tantas garras
como tu obsesión por el arcoíris
no hay esperanza que sirva de almohada
a la fragmentación
el milagro es que todavía puedas
caminar sobre los pies
sin tropezar en los pasos
hay tanta gente atrincherada
en el recuerdo de lo que serás
um poema aún perfecto
un helado de fuego
una luz esculpida en el silencio
un mapa de camelias dulces
y crudas
en vez de las manos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Improviso intimista...

Escreveste
corro para os teus braços e confesso
quando te dei a minha alma
não foi por não saber que ela era grande
foi antes por saber
que nunca ninguém a desejara
e continuaste
ao contrário do meu corpo
que todos os homens cobiçam
a minha alma reclama a tua assinatura
e só por isso te pertence
e eu respondi
assino por baixo.

Ademar
17.02.2009


Improvisación intimista...

Escribiste
corro hacia tus brazos y confieso
cuando te di mi alma
no fue por no saber que era grande
fue más bien por saber
que nunca nadie la había deseado
y continuaste
al contrario que mi cuerpo
que todos los hombres codician
mi alma reclama tu firma
y solo por eso te pertenece
y yo respondí
subscribo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Improviso para registar uma cumplicidade...

Uma vez por década
circunstancialmente
troco um sorriso
e um olá com a Gabriela
e ela comigo
nunca parámos para conversar
há bairros assim
em que a morte passeia devagar
entre ruas e casas que parecem sempre desabitadas
ou talvez não tenhamos mesmo nada
para dizer um ao outro
a urgência é um tempo que morre na indiferença
de todos os gestos desencontrados
mas todos os meus amigos adolescentes
estiveram perdidamente apaixonados pela Gabriela
e não sei quantos poemas de amor
a pedido
escrevi para ela
e não sei quantos ela chegou a ler
aprendi entre a Avenida Central
e a Justino Cruz
a declinar o poder da palavra
e o seu feitiço
a Gabriela nunca soube
que o poeta era eu.

Ademar
17.02.2009


Improvisación para registrar una complicidad...

Una vez por década
circunstancialmente
cruzo una sonrisa
y un hola con Gabriela
y ella conmigo
nunca nos paramos a conversar
hay barrios así
en los que la muerte pasea despacio
entre calles y casas que parecen siempre deshabitadas
o tal vez no tengamos realmente nada
que decirnos el uno al otro
la urgencia es un tiempo que muere en la indiferencia
de todos los gestos desencontrados
pero todos mis amigos adolescentes
estuvieron perdidamente enamorados de Gabriela
y no sé cuántos poemas de amor
por encargo
escribí para ella
y no sé cuántos llegó ella a leer
aprendí entre la Avenida Central
y la Justino Cruz
a declinar el poder de la palabra
y su hechizo
Gabriela nunca supo
que el poeta era yo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Improviso para amante secreta...

Nenhuma pele tem tantas ondas
como a voz com que sorris
e tão frequentemente adoeces
o teu corpo que já não cabe
no antigo colete de forças
tão grande e tão pequeno ainda
para a loucura em que anoiteces
a menina do gelado que nunca derrete
a mãe do universo inteiro
entre tantas ruas e tantas casas
que só tu mesmo poderias habitar.

Ademar
16.02.2009


Improvisación para amante secreta...

No hay piel con tantas olas
como la voz con que sonríes
y tan frecuentemente adoleces
tu cuerpo que ya no cabe
en la antigua camisa de fuerza
tan grande y tan pequeña aún
para la locura en que anocheces
la niña del helado que nunca se derrite
la madre del universo entero
entre tantas calles y tantas casas
que solo tú realmente podrías habitar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Improviso a quatro mãos...















Improvisación a cuatro manos...

Cuando mueras
yo lloraré
y será suficiente
cuando llores
yo moriré
y será suficiente.

Improviso para recontar La Traviata...



Todas as mulheres foram margaridas ou violetas
num capítulo qualquer de um libreto
para Verdi
e trouxeram no peito uma camélia
e deram a beber do seu vinho
a todos os homens com sede
e a nenhum
senão o único
tiro tudo de casa dizes
pinto o tecto e as paredes
deixo apenas uma tela no lugar do corpo
onde os teus olhos repousem
e uma jarra que anuncie a primavera
e um berço talvez por estrear
tenha a forma que tiver
dois poemas podem cruzar-se
num.

Ademar
15.02.2009


Improviso para volver a contar La Traviata...

Todas las mujeres han sido margaritas o violetas
en un capítulo cualquiera de un libreto
para Verdi
y han llevado en el pecho una camelia
y han dado de beber de su vino
a todos los hombres con sed
y a ninguno
sino al único
lo retiro todo de casa dices
pinto el techo y las paredes
dejo solo un lienzo en el lugar del cuerpo
donde tus ojos reposen
y un jarrón que anuncie la primavera
y una cuna tal vez por estrenar
tenga la forma que tenga
dos poemas se pueden cruzar
en uno.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Improviso para dizer que a mãe adormeceu...

Já desisti de querer governar o mundo
a partir do meu bairro
já desisti mesmo de querer governar o mundo
em que cabe o meu bairro
o poder é uma puta irrespeitosa
e confia-se mais depressa a quem mais o merece
quero apenas amar-te
como se não existisses
digo
como se fizesses parte de mim
nesse espelho em que viajo
à perfeição só falta mesmo
o género que me acrescentes.

Ademar
14.02.2009


Improvisación para decir que mi madre se ha dormido...

Ya he desistido de querer gobernar el mundo
desde mi barrio
ya he desistido incluso de querer gobernar el mundo
en el que cabe mi barrio
el poder es una puta irrespetuosa
y prefiere confiarse a quien más lo merece
quiero simplemente amarte
como si no existieras
digo
como si formaras parte de mí
en ese espejo en el que viajo
a la perfección en realidad solo le falta
el género que me añadas.

Improviso para sopa e sobremesa...

Todos os segredos têm
a urgência compassiva dos dedos
das tuas mãos
nesse chicote que golpeia a distância
na fronteira
entre os lugares que imaginamos
o contágio adoece por dentro
as ondulações do desejo irrespirável
há uma luz que ferve ainda mais no pudor
no silêncio
portas que se abrem e se fecham
sobre a imaterialidade da memória
nada na vida se repete
nascemos para renascer
todos os dias.

Ademar
13.02.2009


Improvisación para sopa y postre...

Todos los secretos tienen
la urgencia compasiva de los dedos
de tus manos
en ese látigo que golpea a distancia
en la frontera
entre los lugares que imaginamos
el contagio adolece por dentro
las ondulaciones del deseo irrespirable
hay una luz que hierve aún más en el pudor
en el silencio
puertas que se abren y se cierran
sobre la inmaterialidad de la memoria
nada en la vida se repite
nacemos para renacer
todos los días.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Improviso para lembrar que o inverno desfalece...

Uma sopa
a sobremesa
ou a mesa posta sobre a metáfora
a servir de altar
a toalha de rendas
que a mãe teceu
e o pai sempre ausente
traído no desconhecimento
da perícia das mãos
essa mulher que nunca deixou de arder
no silêncio
e que põe rosas
no lugar da alma
como se já cheirasse a primavera.

Ademar
12.02.2009


Improvisación para recordar que el invierno desfallece...

Una sopa
de postre
o la mesa puesta sobre la metáfora
sirviendo de altar
el mantel de puntilla
que mi madre tejió
y mi padre siempre ausente
traicionado en el desconocimiento
de la pericia de las manos
esa mujer que nunca dejó de arder
en el silencio
y que pone rosas
en el lugar del alma
como si ya oliera a primavera.